22 de outubro de 2017

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Pesadelo

Duas da tarde. Aquele calor insuportável e as horas teimando em se arrastar. Cansada e desmotivada, Tânia levanta-se de sua baia e vai ao banheiro para se refrescar um pouco. Abre a torneira e fica pensando: “Eu não mereço isso”. E “isso” era um chefe sem consideração, um trabalho anônimo e uma empresa parada no tempo, em que ‘criatividade’ era sinônimo de ‘ameaça’. Tânia olhou-se no espelho e começou a pensar. E aí, de dentro do espelho, um dragão roxo, botando fogo pelas ventas, saltou sobre ela.

CONTATO CLUBE - SETEMBRO

Tânia acordou sobressaltada. Felizmente, tudo tinha sido um pesadelo. Olhou para o relógio. Eram três e meia da manhã. E ela era a mesma dona-de-casa de sempre, que havia abandonado a carreira para se dedicar à família. A seu lado na cama, Mariozinho, seu amado esposo, dormia o sono dos justos. Tânia levanta para ver se as filhas, Mariella e Stephany, estão bem cobertas. Estão. Aí, vai à cozinha tomar água. A água tinha um gosto de ferrugem, mas, fazer o quê? Pior era o armário, meio carcomido, com uma porta emperrada, e praticamente vazio. Pensando nisso, será que havia leite para o café da manhã? Tânia foi verificar. Abriu a porta da geladeira e o dragão roxo saltou sobre ela.

Tânia dessa vez pulou da cama. Estava suando frio. Que raio de pesadelo tinha sido aquele? Ela era solteira, não tinha filhos e, no dia em que decidisse casar, jamais se casaria com alguém apelidado de Mariozinho. Com certeza, aquilo era o efeito da torta de sardinha do jantar. Tânia precisava se alimentar, ordenara sua mãe, para poder aguentar o repuxo do dia seguinte. Estagiária há onze meses em uma fábrica que ficava do outro lado da cidade, Tânia tinha que levantar às cinco da manhã e pegar três conduções para chegar no horário. A fábrica fornecia o passe, é verdade, além de um vale refeição para o almoço. Mas, mesmo assim, o salário mal dava para pagar a faculdade. Mas dolorosa, mesmo, era a falta de perspectiva. Tânia já sabia que não seria efetivada e não tinha nenhuma outra oportunidade em vista. E aí sentiu aquela pontada no ombro.

– Hum?

– Desculpe, doutora. A senhora cochilou de novo.

Não era o dragão. Era Lúcia, sua discreta assistente, que a estava cutucando O fuso horário, reflexo da longa viagem, fizera Tânia bizucar pela segunda vez na reunião de diretoria. Culpa dela, que insistira em vir direto do aeroporto para apresentar os resultados da negociação em Paris: um novo contrato de consultoria, de milhões de dólares. Por isso, todos ali na sala estavam mais que dispostos a perdoar sua sonequinha: aquele negócio seria o seu passaporte para a vice-presidência da América Latina. Tânia pediu desculpas e foi para sua sala. Um salão enorme, de móveis em estilo bizantino, com quadros clássicos, plantas exóticas, livros raros e um estranho senhor de camisolão branco.

– Quem é você?

– Gabriel, do Setor de Subconscientes. Desculpe, mas tivemos um probleminha em nosso sistema e alguns sonhos e pesadelos acabaram se misturando. Mas agora está tudo normalizado. Infelizmente, lamento dizer, este sonho não é seu. Os pesadelos é que eram.

– Obrigada, Gabriel. Eu sei exatamente quem sou, mas garanto que amanhã vou acordar bem diferente. Porque uma coisa eu aprendi esta noite. Já que eu posso sonhar na vida, por que venho me contentando em sonhar com tão pouco?

Max Gehringer 

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